| Prisão de Tiradentes, de Antônio Diogo da Silva Parreiras. Herói ou mito construído? |
Era uma manhã que nascia ensolarada no Rio de Janeiro de 21 de abril de 1792. O sentenciado saiu da cadeia pública. Seus olhos ficaram momentaneamente ofuscados pela claridade, mas em pouco tempo pode ver o espetáculo armado pela Coroa portuguesa.
Percorreu a pé os metros que o separavam do patíbulo, armado no Largo da Lampadosa. O homem, magro e alto, sem qualquer beleza, com a cabeça e barbas raspados, caminhava acompanhado por uma fanfarra e por toda a tropa. O povo que se juntava a volta, estava pronta para o espetáculo.
Subiu a pés descalços os degraus de madeira do patíbulo. Lá em cima estava o oficial da Coroa, o padre e o carrasco com seu rosto coberto. O padre fez suas orações, ofereceu o crucifixo para o condenado beijar. Assim ele o fez. O carrasco, um sujeito alto e forte aproximou-se. Era o negro, que tinha por nome Capitânia e pediu a ele o perdão por cumprir a sentença. Era apenas praxe, uma fórmula no processo de execução. O sentenciado, num gesto que causou surpresa, beijou os pés e as mãos de Capitânia
O carrasco passou o laço pelo pescoço do condenado, ajeitou-o acima da abertura no piso, e após a liberação do oficial, a alavanca foi puxada. E o corpo despencou. A corda não era longa o suficiente para, na queda causar uma morte imediata, quebrando o pescoço. O sujeito agonizou por algum tempo. Até que acabou.
O corpo foi elevado e o carrasco, pegando um machado, desferiu o primeiro golpe no corpo nu, estendido sobre o patíbulo. Assim a cabeça estava separada do corpo.
A um sinal do oficial da Coroa, o carrasco aguardou. O oficial se aproximou, recolheu um pouco do sangue do morto, e com ele lavrou a ata de cumprimento da sentença.
O espetáculo sinistro continuo, com o carrasco separando a machadadas os braços e as pernas, enquanto o oficial anunciava os locais onde ficariam expostos as partes do corpo, a destruição de sua casa e o salgamento do terreno e a infâmia que recairia sobre ele e seus descendentes.
O espetáculo, que a Coroa esperava impressionar a população e dissuadi-la a se revoltar, causou em parte efeito contrário: muitos ficaram irados com a barbárie praticada em clima festivo.
